A grande dificuldade em se falar sobre a filosofia da ação como um campo unificador do discurso ou estudo da práxis é posicionar os papéis que teoria e práxis aí teriam.
Poderíamos coletar dados históricos sobre as mais diversas disciplinas que tratam da questão da ação humana; temos até vertentes distintas de desenvolvimento de um mesmo campo de estudo, como, por exemplo, a antropologia, que de início parece ter um caráter iminentemente filosófico, como em Immanuel Kant, só para mais tarde entrar para o rol das tais ciências sociais.
Acostumado com o método filosófico, um procedimento constante nas diversas escolas e que o valha, vale a pena partir para uma propedêutica da questão, uma espécie de exercício descompromissado, ou um exercício cujo único compromisso é preencher a atenção com argumentos filosóficos na esperança de que surja uma saída intuitiva do estado de irresolução.
Porém a tentativa terá de ser ao mesmo tempo pouco acadêmica e incômoda. A intenção sendo, ao fim e ao cabo, algum esclarecimento.
Usemos então a afirmação de Aristóteles no começo de sua Ética Nicomaquéia, em que toma por suposto que a ética não deve ser exatamente um campo de estudo, mas algo a ser posto em prática. A ética não tem como fim a ciência, mas a ação. E isto é assim ao mesmo passo em que há três tipos de vida (a servil, a política e a contemplativa). A mais elevada de todas é a última, dita em grego bios theoretikos (vida teorética); isto, por fim, ao passo que o homem é tido como um animal político (zoon politikon), cuja essência só pode ser plenamente realizada na pólis.
A teoria mesma não é estática, mas ativa. Não podemos, assim, tomar práxis por atividade e teoria por passividade. A posição do homem que leva a vida teorética, a vida contemplativa, não é passiva. O intelecto mesmo em Aristóteles é dito ora ativo, ora passivo. Mas até a passividade pressupõe atividade, porque ela acontece, só que com sinal trocado. O pensamento mesmo é atividade.
Porém o que está dito no parágrafo anterior, embora expanda e explane nossa questão, não toca nela diretamente. A questão é mais saber como essa miríade toda é possível. Temos ao mesmo tempo que a vida mais elevada é a teórica ou contemplativa e que o homem é um animal político que só pode realizar sua essência na pólis. Os que são apolíticos não passam de bestas, cuja humanidade é duvidosa ou simplesmente apenas potencial, porque não chega a atualizar-se de fato. Então se a vida mais elevada é a contemplativa, como o modelo maior disto, o filósofo, pode não ser uma besta apolítica, cuja humanidade existe apenas em potência? Vejam, há três tipos de vida, entre elas a política e a teórica. Se o filósofo vive a vida teórica então ele não vive a política, não é? E se não vive a vida política contraria a idéia de que o homem seja um ser político.
Isto se não fizermos duas correções. Primeiramente precisamos entender o que significa ser essencialmente um animal político. Quer dizer que todo homem faz política, naquele sentido preciso de que precise freqüentar uma câmara, filiar-se a um partido, etc.? É claro que aqui não falamos de como funcionava a política na Grécia, que não nos interessa no momento. Falamos sim de um sentido estrito de política, que traz em si uma certa idéia de profissionalização ou de atividade de um especialista. Que todo homem seja político significa que todos viveremos a vida política, isto é, a vida de um político?
Não! Fique claro desde já que aqui temos um sentido equívoco (difuso) de política. Por um lado temos que o homem é um animal político, por outro que há um certo tipo de vida que é a política. Mas todo homem é político mesmo que leve uma vida servil (isto é, uma vida em que exerça uma atividade manual em que é especialista), ou até mesmo que leve uma vida contemplativa.
Nesse caso defendemos a idéia de que não há uma evolução em estágios, em que o político deva passar por uma fase servil e o teórico por uma fase política. Fato é que todo homem é um animal político, exerça ele uma atividade servil, política ou contemplativa. Ou, dito de outra maneira, o homem é um ser citadino, um ser, a princípio, “civilizado”, ao contraponto de uma besta (um animal irracional) que viva, por exemplo, nas florestas. Aqui, por correção política ou não, pode-se dizer simplesmente que os povos indígenas constituam uma civilização à parte, não sendo assim bestas, como um petulante qualquer poderia querer dizer.
De qualquer maneira, como fica o lugar que teoria e prática devem ocupar? Há teoria da prática, há prática da teoria, a teoria é independente ou dependente da prática, e a prática, por sua vez, necessita da teoria? Como ensaiar uma resposta que nos tire dessa enrascada? E como fica a undécima tese sobre Feuerbach, de Karl Marx, que diz que devemos parar de teorizar o mundo para transformá-lo?