Novos Jacobinos e Ultramontanos

Hoje acrescentamos à nossa listagem ao lado alguns novos blogs, encontrados por aí por acaso. Um deles, que está ali entre os jacobinos, foi encontrado via Google, em uma pesquisa sobre Lukasiewicz e ontologia. A Arcana Diabólica Universalia — talvez o blog mais brilhantemente escrito por que já pude passar meus olhos — que, porém, não respondeu a minha questão. Mas me mostrou algo ainda mais interessante: Aristóteles, aparentemente, via limitações no princípio de não-contradição. O blog já valeria a pena por isso, mas vai além. O sujeito conhece as paragens musicais do roque as mais obscuras, competindo fortemente aí com Julio Lemos. E, tudo indica, é de esquerda — o que contrasta fortemente com sua tamanha inteligência, fazendo dele um caso a ser estudado. Quer dizer, digo isso para jogar para a torcida e para provocar certa parcela de visitantes. Fato é que o sujeito ali, seja quem for, prova algo bastante claro: as mentes mais brilhantes dos séculos XIX e XX às vezes calharam de aderir à esquerda, de enlambuzar-se nela. E daí? Temos muitíssimo a aprender com um Walter Benjamin ou um Herbert Marcuse, ou um Theodor Adorno ou um Gilles Deleuze. É claro que o leitor que adora afetar incorreção deve ter sido afligido por uma síncope neste momento. Mas por mais idiota que Adorno pudesse ser por vezes (a maneira como simplifica o que seria a educação americana é um exemplo), ainda assim o sujeito disse muita coisa interessante. Além disso, é provável que o intelectual médio da nova direita no Brasil tomasse um grande pau de qualquer um deles, e até de um Michel Foucault, oh santo horror! Não acho que a maioria deles esteja preparada para um embate sério com esses senhores, a quem só sabem simplificar, jogando para a torcida, como um dia fez José Dirceu ao alugar uma claque para aplaudi-lo no Congresso.

Um outro blog, que descobri em decorrência desse aí, foi o tal Consolatio Philosophiae, que agora figura, sem firula, ao lado do Sal Terrae na seção ultramontana.

Por outro lado, tivemos também o acréscimo do, ao que parece, amigo do Catatau, o tal Ágora com Dazibao no Meio, recém mudado para aquela região sombria e rousseaniana, em contraponto àquela alegre e voltaireana.

Olavo de Carvalho Vira Verso em Soneto

É incrível como podemos nos surpreender. Por mais pessimistas que sejamos, sempre há mais para nos tornar mais pessimistas e, um pouco mais raramente, um pouco menos. A seguir o leitor poderá ler um belo soneto que diz nada menos que a verdade. Encontrado por acaso junto com outras referências que virão em um próximo post. E tudo por causa de uma pesquisa sobre Lukasiewicz e sua leitura da não-contradição em Aristóteles… estranhas paradas nos proporciona essa internet.

Soneto ao Jardim defunto

Disse-me o Daher, egrégio amigo,
Que outrora o Mestre era sábio!
‘Será possível?’, penso cá comigo,
‘Era então douto o vil Enrrolávio?!?’

Pois diz o Daher, e com certeza,
Que d’antes o Mestre, com arte e lhaneza,
Pelo Jardim as flores da Tradição semeava,
E sem Aflição a inteligência cultivava!

Virginia, pérfida hidra, contudo logo emergiu,
Entre as frágeis touceiras do olaviano jardim
E a sabedoria, hórrido prodígio, dali sumiu!

Que atroz sucesso, que amargo fim!
O que ontem ecoava o nobre Aristu,
Hoje é ‘ora porra, vá tomar no cu!’

Hassan Ibn Sabbah in Neodadaísmo

Em que se Funda o Falibilismo Possível

Há aquilo que pode ser demonstrado, partindo de princípios, e há aquilo que não pode ser demonstrado, porque são os princípios, a matéria de que partem as próprias demonstrações.

Por questão de economia de esforços, chamemos aquilo que parte de princípios de conhecimento de segunda ordem, e os princípios mesmos, porque anteriores à demonstração e indemonstráveis, conhecimento de primeira ordem.

Quanto àquilo que pode ser demonstrado temos ainda duas distinções, entre o que é necessário e entre o que é provável e possível (ambos contingentes). Uma afirmação do tipo 2 + 2 = 4 é do tipo necessário, mas uma do tipo “o sol nascerá amanhã” é provável, porque não é absolutamente necessário que o sol nasça amanhã — além de que não faz sentido dizer que o sol nasça, ainda mais se tendo em conta que é a Terra que gira em torno dele.

O falibilismo além de relacionar-se com os conhecimentos de segunda ordem, apenas o faz em relação ao que é provável ou possível. Só pode haver erro em relação ao que é provável ou possível, jamais em relação ao que é certo e necessário, muito menos em relação ao conhecimento de primeira ordem, que é o fundamento desses juízos apodícticos de segunda ordem.

Por fim, todo conhecimento de primeira ordem, nessa terminologia ensaística nossa, é intuitivo. Ou seja, todo princípio é intuitivo e nessa medida invencível ou infalível. Já todo conhecimento de segunda ordem é discursivo — e por sua vez divide-se em necessário e contingente. Há conhecimento discursivo necessário, e este conhecimento também é infalível. O falibilismo, em se tendo que diz respeito ao contingente, é o assentimento básico à idéia de que freqüentemente é possível errar. Mas só é possível errar porque há o acerto, há uma reta senda, de que o erro é desvio.

A Falha do Falibilismo Absoluto (ou o Princípio de Possibilidade da Discursividade)

O falibilismo nada tem de especial ou original se considerarmos que lida com um fato elementar da teoria do conhecimento e da filosofia da lógica: podemos estar enganados e podemos estar enganados a qualquer momento, com a condição de que não possamos estar enganados o tempo todo.

Nunca podemos nos enganar com que haja infinitos modos de nos enganarmos, embora possamos corrigirmo-nos de nossos enganos ao assumirmos que erramos, mas, mesmo que erremos com freqüência, nunca poderíamos dizer que sempre podemos errar, ao risco da impossibilidade de afirmar-se apodicticamente que o erro seja freqüentemente possível.

Um falibilismo absoluto faria com que todo enunciado fosse falível, inclusive o de que a maior parte absoluta dos enunciados é falível; de que tudo que se pode dizer seja falível implica a contingência de tudo que possamos dizer.

É necessário que nem tudo seja falível, ao risco de igualar-se o falibilismo a uma forma requintada de relativismo, em que nada afinal é certo, nem esta última afirmação. Então que teríamos senão o vazio de referência dos signos da linguagem, vazio em si que teria de ser em si um signo, mesmo que auto-reflexivo? Logo, obriga-nos o princípio de não-contradição: o absurdo absoluto é impossível, algo substancial há a ser dito.

No Wave (or Teenage Jesus & the Jerks)


 
 

No Wave é um dos movimentos mais infantis e explosivos por que a história do roque já passou. Ao mesmo tempo, Teenage Jesus & the Jerks não é para crianças, e pode realmente chocar.

Arte e vida embaralhados? Besteira ideológica? Realidade plasmada em um ritmo psicótico? Talvez violence and disorder for fun, sinal de nossos tempos.

John McCain Nomeia Governadora do Alasca para Esquentar sua Chapa

A definida vice-presidente pelo Partido Republicano

Acaba de ser anunciada a vice-presidente a concorrer junto com John McCain à presidência dos Estados Unidos. Trata-se da governadora do Alasca, Sarah Palin, que pode ser a primeira mulher a tornar-se vice-presidente na história daquele país.

Com um discurso de aceitação que praticamente copiou o discurso dos democratas nos últimos dias, Palin trará um ar de jovialidade para animar a campanha de McCain, que agora poderá dizer-se ineditista, acaso cheguem à Casa Branca.

A questão maior, porém, é como os republicanos chegarão lá, quando se encontram na mesma situação dos nossos tupiniquins José Serra e Rita Camata em 2002, quer seja, o da mudança na continuidade, ao passo que temos um mestiço que promete trazer mudança de fato a Brasília, digo, a Washington, porque assim, no fim das contas, Obama poderá dizer algo como “hope has prevailed over fear”, assim como aquele senhor que encabeçava a chapa de Joe Byden, digo, José Alencar.

Mas, falando sério, alguém que tenha visto a habilidade retórica de Obama ontem frente a esse discurso simulador de Palin só pode ter é muita raiva. E que espécie de aliança conservadora é essa que só consegue imitar o discurso da oposição? É o mesmo drama de 2002 no Brasil, com José Serra, à diferença de que talvez o robótico John McCain não esteja vivo daqui a oito anos para concorrer mais uma vez à presidência, como provavelmente José Serra fará em 2010, oito anos depois da eleição, nada inaugural, do nosso mestiço presidente.

Discurso de Oficialização da Candidatura de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos

Foi um excelente discurso, na minha opinião. Poderia ter sido melhor? Talvez, mas como saber? O que importa é que passamos da expectativa do discurso (para quem o esperou durante o dia inteiro) para fato. A impressão foi bastante boa e conseguiu trespassar o liberalismo de esquerda, a que supostamente Barack Obama filia-se.

Para uma análise mais detalhada vale a pena esperar a transcrição do discurso de Obama, pois é lá que vale a pena mostrar detidamente como Obama conseguiu ultrapassar os clichês sobre aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc. Há questões maiores do que aquelas que separam um país entre esquerda e direita, entre esquerdistas liberais keynesianos e direitistas conservadores heterodoxos (como é possível que esquerdistas keynesianos pratiquem a tal responsabilidade fiscal, enquanto os conservadores não o fazem?).

Mais adiante. Por ora vale relatar a dificuldade que a própria equipe da Fox News (direitista e assumidamente republicana) teve, ao lado da nobreza da Weekly Standard, em achar falhas; embora, claro, tenham apontado algumas (não se trataria de um discurso novo, mas de uma repetição do que a esquerda liberal diz há vinte anos, etc.).

Teoria e Prática em Seus Devidos Lugares

A grande dificuldade em se falar sobre a filosofia da ação como um campo unificador do discurso ou estudo da práxis é posicionar os papéis que teoria e práxis aí teriam.

Poderíamos coletar dados históricos sobre as mais diversas disciplinas que tratam da questão da ação humana; temos até vertentes distintas de desenvolvimento de um mesmo campo de estudo, como, por exemplo, a antropologia, que de início parece ter um caráter iminentemente filosófico, como em Immanuel Kant, só para mais tarde entrar para o rol das tais ciências sociais.

Acostumado com o método filosófico, um procedimento constante nas diversas escolas e que o valha, vale a pena partir para uma propedêutica da questão, uma espécie de exercício descompromissado, ou um exercício cujo único compromisso é preencher a atenção com argumentos filosóficos na esperança de que surja uma saída intuitiva do estado de irresolução.

Porém a tentativa terá de ser ao mesmo tempo pouco acadêmica e incômoda. A intenção sendo, ao fim e ao cabo, algum esclarecimento.

Usemos então a afirmação de Aristóteles no começo de sua Ética Nicomaquéia, em que toma por suposto que a ética não deve ser exatamente um campo de estudo, mas algo a ser posto em prática. A ética não tem como fim a ciência, mas a ação. E isto é assim ao mesmo passo em que há três tipos de vida (a servil, a política e a contemplativa). A mais elevada de todas é a última, dita em grego bios theoretikos (vida teorética); isto, por fim, ao passo que o homem é tido como um animal político (zoon politikon), cuja essência só pode ser plenamente realizada na pólis.

A teoria mesma não é estática, mas ativa. Não podemos, assim, tomar práxis por atividade e teoria por passividade. A posição do homem que leva a vida teorética, a vida contemplativa, não é passiva. O intelecto mesmo em Aristóteles é dito ora ativo, ora passivo. Mas até a passividade pressupõe atividade, porque ela acontece, só que com sinal trocado. O pensamento mesmo é atividade.

Porém o que está dito no parágrafo anterior, embora expanda e explane nossa questão, não toca nela diretamente. A questão é mais saber como essa miríade toda é possível. Temos ao mesmo tempo que a vida mais elevada é a teórica ou contemplativa e que o homem é um animal político que só pode realizar sua essência na pólis. Os que são apolíticos não passam de bestas, cuja humanidade é duvidosa ou simplesmente apenas potencial, porque não chega a atualizar-se de fato. Então se a vida mais elevada é a contemplativa, como o modelo maior disto, o filósofo, pode não ser uma besta apolítica, cuja humanidade existe apenas em potência? Vejam, há três tipos de vida, entre elas a política e a teórica. Se o filósofo vive a vida teórica então ele não vive a política, não é? E se não vive a vida política contraria a idéia de que o homem seja um ser político.

Isto se não fizermos duas correções. Primeiramente precisamos entender o que significa ser essencialmente um animal político. Quer dizer que todo homem faz política, naquele sentido preciso de que precise freqüentar uma câmara, filiar-se a um partido, etc.? É claro que aqui não falamos de como funcionava a política na Grécia, que não nos interessa no momento. Falamos sim de um sentido estrito de política, que traz em si uma certa idéia de profissionalização ou de atividade de um especialista. Que todo homem seja político significa que todos viveremos a vida política, isto é, a vida de um político?

Não! Fique claro desde já que aqui temos um sentido equívoco (difuso) de política. Por um lado temos que o homem é um animal político, por outro que há um certo tipo de vida que é a política. Mas todo homem é político mesmo que leve uma vida servil (isto é, uma vida em que exerça uma atividade manual em que é especialista), ou até mesmo que leve uma vida contemplativa.

Nesse caso defendemos a idéia de que não há uma evolução em estágios, em que o político deva passar por uma fase servil e o teórico por uma fase política. Fato é que todo homem é um animal político, exerça ele uma atividade servil, política ou contemplativa. Ou, dito de outra maneira, o homem é um ser citadino, um ser, a princípio, “civilizado”, ao contraponto de uma besta (um animal irracional) que viva, por exemplo, nas florestas. Aqui, por correção política ou não, pode-se dizer simplesmente que os povos indígenas constituam uma civilização à parte, não sendo assim bestas, como um petulante qualquer poderia querer dizer.

De qualquer maneira, como fica o lugar que teoria e prática devem ocupar? Há teoria da prática, há prática da teoria, a teoria é independente ou dependente da prática, e a prática, por sua vez, necessita da teoria? Como ensaiar uma resposta que nos tire dessa enrascada? E como fica a undécima tese sobre Feuerbach, de Karl Marx, que diz que devemos parar de teorizar o mundo para transformá-lo?

A Filosofia de Acordo com o Estatuto do Idoso

A filosofia é um amor não correspondido pela sabedoria. É uma amizade que busca originalmente, como em toda amizade, estar perto. Porém no tempo, e eis sua história, a filosofia desdobra-se numa questão, num inquérito pela possibilidade desse amor amigo. De todo modo, o que seja essa relação, a qual equivale à filosofia mesma, passa a ser impossível de resolver-se, e quem quer que tente fazê-lo — prescreve a corporação de ofício e a norma do dia — deve estar velho e cansado.

Os Dogmas da Bossa Nova, ou Quando um Lógico Pira na Batatinha

João Vergílio Gallerani Cuter é professor de lógica no departamento de filosofia da USP — um departamento de letras francês d’ultramar, digamos, em que Wittgenstein e Marx casam-se e têm rebentos nos trópicos.

De repente o caríssimo passou a freqüentar a comunidade do blogueiro Luís Nassif, o homem do cavaquinho. Há discussões de alto nível por lá (“E se eu uso um caixote para me sentar sobre ele, será que esse caixote se transforma por isso em uma cadeira?”).

Segue um dos tópicos discutidos pelo lógico violeiro:

Laura,

Já que você resolveu nos dar uma “canja”, vou aproveitar para lhe fazer uma pergunta. Você sabe como foi introduzida a dissonância na MPB? As harmonizações, desde a década de 30, já estavam bem sofisticadas. Não sou especialista no assunto, mas de vez em quando eu me tranco no quarto e cometo minhas barbaridades. Não dá para tirar os acordes básicos de uma música de Ari Barroso olhando para as estrelas, né? Mas a minha impressão é que os acompanhamentos só faziam uso de acordes naturais, mesmo nos arranjos mais sofisticados. (Corrija-me se eu estiver errado, ok? É só impressão de leigo, mesmo.) Acordes dissonantes parecem aparecer depois, com a Bossa Nova. (Ou não? Já vejo o Nassif postando um link do Garoto… rs…)

Réplica de João Vergílio sobre o tópico “Os dogmas da bossa-nova” na Comunidade do Blog do Luís Nassif.